Considerações sobre a Finitude e o Ser

             O ser humano apresenta grande dificuldade em lidar com sua onipotência,  considerando-se insubstituível, imortal, dono da verdade e de virtudes sem fim. Faz   parte do desenvolvimento saudável aprender a lidar com angustias, medos, frustrações, perdas, limitações de nossa personalidade e de nossa realidade, o que nos auxilia na discriminação de sentimentos, pensamentos, com a possibilidade de controle dos impulsos, com a percepção de que não se é o centro do mundo (O Grande e Único SOL) , mas que se  faz  parte de um mundo amplo e complexo, que reage às atitudes e tipo de relações estabelecidas.

            A vida implica em perdas, nem sempre bem elaboradas. Nossa vida é assim, sempre no reverso da moeda perdas/ganhos que vão moldando nossa personalidade, nosso ego e possibilitando variados níveis de adaptação, em uma disputa silenciosa e constante entre o principio do prazer e o princípio da realidade.

            No ciclo da vida uma das grandes dificuldades que o homem vivencia é lidar com sua finitude e com a finitude dos que lhe são caros. Evita-se falar da possibilidade da própria morte, da perda do outro, finitude sempre envolta em segredos, mitos, angustias, medos, culpa, negação… Somos finitos, nossas relações são finitas, os que amamos são finitos – mas como é difícil poder falar sobre a morte quando ela nos acena, com o desconhecido com o qual nos deparamos e que gera tanto medo, desfiando nossa onipotência e imaginação.

            Como é difícil partir e falar da partida do outro, abrir um espaço para que esse assunto venha à tona, suportar a dor da despedida, do desconhecido. Em geral tentamos negar a proximidade e eminência da morte – por um mecanismo de negação ou minimização para impedir a expressão da dor, o  “planejamento” do tempo que resta, pois é um momento de reflexão, de recolhimento, de autoanálise e decisões.

            Que força “o último desejo” encerra – mas o quanto conhecemos dos desejos dessa pessoa ao longo da vida, quão próximo somos e fomos? O que pode ser  desculpável? Quais brigas ainda precisam ser vividas ou resolvidas? Que culpas manifestas? E o quanto  “não deixar que o outro se despeça”, que fale sobre a própria morte, de seus medos e fantasias, se desculpe,  não  dificultam esse momento de finalização, de “balanço da vida”? Há encontro na despedida.

                    Quanto mais verdadeira, profunda  e sincera for a relação, maior o espaço para os desentendimentos, brigas,  reconciliações ao longo da trajetória em vida, até o momento da despedida e na elaboração da morte.É preciso viver e deixar viver e morrer, cada um tem o seu tempo, de sua forma, com suas crenças, ideologias, limitações e assim será  lembrado. O pranto e o luto precisam ser vivenciados como um processo de despedida e não como uma fraqueza. É preciso deixar partir para que essa pessoa possa viver e reviver em nossos pensamentos, sentimentos e lembranças como alguém que fez parte de nossa vida e história.

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